As origens da vocação de Campinas em Tecnologia da Informação


 Prof. José Ripper

          Muito se fala da vocação de Campinas para Tecnologia da Informação (TI), mas nem todos conhecem as histórias determinantes que levaram a cidade a ter este diferencial. Na coluna de hoje tratarei de um episódio um tanto incidental que produziu uma das sementes, entre tantas, da inserção da região no cenário mundial de TI na década de 60-70.
          O Prof. José Ripper, umas das principais lideranças científicas e tecnológicas do país, dispensa apresentações. Certamente foi uma das figuras mais importantes na consolidação de Campinas como polo tecnológico. A vida de Ripper é riquíssima em histórias, sempre conectadas com grandes eventos do país.
          Mensalmente, tenho tido o privilégio de me reunir com o Prof. Ripper, quando almoçamos para conversar sobre a conjuntura das políticas industrial, científica e tecnológica.
          Numa destas oportunidades, ele contou uma história fascinante sobre o suicídio de Vargas. Adolescente, com cerca de 15 anos, tinha recebido a recomendação de seu pai para que não fosse ao colégio naquela manhã de agosto de 1954, por conta das turbulências ocasionadas pela renúncia de Vargas, que já era pública. Mesmo assim decidiu ir e, ao chegar, constatou que seu pai estava certo: a escola estava fechada. Sem rumo, e curioso com a situação caótica que se instaurava, decidiu procurar um amigo, o próprio filho de Café Filho, que morava numa esquina da avenida Nossa Senhora de Copacabana. Afinal, no apartamento do Vice-Presidente, Ripper poderia saber todas as fofocas sobre a situação política.
          Ele frequentava o apartamento do amigo com bastante intimidade, a ponto de entrar pela porta dos fundos, sem cerimônia. Mas naquele dia tudo estava diferente porque Café Filho agora era o Presidente da República, por conta da renúncia de Vargas. As imediações da casa do recém presidente já estavam cercadas com tanques de guerra, mas ainda era possível chegar a pé. O jovem Ripper conseguiu subir incógnito pela escada, como sempre fazia. Entrando pela cozinha, ato contínuo, ouviu o telefone tocar e ser atendido por um ajudante de ordens, que imediatamente anunciou nervosamente: "Vargas se suicidou!"
          Possivelmente, Ripper foi um dos primeiros a tomar conhecimento de um dos fatos mais importantes e trágicos da história recente do Brasil.
          Este é o tipo de situação que se repetiu ao longo da vida deste professor da Unicamp, que testemunhou e protagonizou muitos outros episódios como este.
          Campinas, na década de 60, talvez fosse o destino menos provável para um jovem brasileiro cosmopolita, muito bem sucedido em suas experiências profissionais nos Estados Unidos. Mesmo assim, foi esta cidade o destino escolhido por Ripper quando este decidiu retornar ao país. É este episódio que passo a contar a partir de agora.
          Logo após terminar seus estudos no ITA, onde se destacou tanto por sua performance acadêmica quanto pela liderança que exerceu entre os colegas, a qual perdura até hoje, Ripper decidiu-se pelo doutorado nos Estados Unidos. Naquele país produziu resultados científicos pioneiros na área de comunicações ópticas, os quais serviram de matriz para o esforço de várias gerações de pesquisadores que lhe seguiram.
          Terminado o doutorado, rapidamente foi contratado em um dos principais laboratórios de pesquisa americanos da área de comunicações, o Bell Labs. Ali poderia ter permanecido confortavelmente, aproveitando-se de um dos ecossistemas mais vibrantes da época para a ciência e tecnologia.
          Entretanto, Ripper era uma pessoa de fortes sentimentos patrióticos e humanísticos. Sempre esteve entre seus planos retornar ao país para retribuir o investimento que o ITA tinha feito em sua formação. Este amor pelo Brasil estava em seu DNA: seu pai tinha sido um dos responsáveis pela implantação de uma refinaria no Rio de Janeiro e também de uma fábrica de material bélico do Exército na região de Juiz de Fora. O avô tinha sido Senador. Aliás, os antepassados de Ripper são um assunto à parte, dado que tiveram também um importante papel na então jovem república pós-império. Portanto, vinha de uma família de desbravadores, que chegou ao país há mais de 400 anos. Mas deixarei para aprofundar nestes detalhes pregressos em outra oportunidade.
          Talvez tenha sido esta atração atávica pelo Brasil que fizera Ripper decidir pelo retorno ao país, mesmo com todos os riscos que isso representava para a sua carreira. Foi quando tal encruzilhada profissional se apresentou que Campinas teve muita sorte.
          Uma outra figura de grande espírito público, o Prof. Zeferino Vaz, já dedicava a sua vida a criar um novo polo educacional que rivalizasse em qualidade e relevância com a própria Universidade de São Paulo, instituição educacional centenária e tradicional paulista. Zeferino, que tinha sido designado reitor da Universidade de Brasília (UNB) em 1964, acabou assumindo a Presidência da Comissão de Organização da UNICAMP em 1965 e, em seguida, o cargo de reitor da Unicamp em 1966. Buscava atrair para Campinas jovens professores brilhantes, mas era a própria UNB que continuava brilhando naquele momento, por conta da proposta totalmente inovadora de Darcy Ribeiro, para a qual, de certa forma, ele também tinha contribuído.
          Simultaneamente, em 1966, o Governo Brasileiro estava preocupado com a fuga de cérebros do país e muitos pesquisadores que estavam nos EUA foram convidados para uma reunião na embaixada brasileira, visando estimular sua repatriação. Para promover o retorno dos brasileiros expatriados, foram prometidos recursos para pesquisas aos que retornassem ao Brasil. Um veterano do ITA, colega do Prof. Ripper e que também estava nos Estados Unidos, foi escolhido para fazer a negociação do retorno, em nome dos demais cientistas.
          A ideia inicial de muitos que queriam retornar era se vincular à UNB, justamente por conta da proposta inovadora daquela universidade. Mas Ripper, com forte apreço pelas liberdades democráticas, foi reticente e alertava que, em meio a um governo militar feroz, "Brasília era muito próxima da toca do leão".
          Os fatos vieram comprovar que a preocupação de Ripper se justificava: em agosto de 1968 a UNB seria invadida pelo Exército em plena ditadura militar. Tão logo chegaram aos EUA as notícias do ataque à UNB e ligaram para Ripper, segundo consta, às 6 horas da manhã do dia seguinte à invasão: "Ripper, você estava certo. Veja a capa do New York Times! A UNB foi invadida!".
          Este episódio da invasão da UNB gerou um desânimo em todos os brasileiros que estavam querendo voltar ao país, atrasando o retorno por mais dois anos.
          Quando finalmente as coisas acalmaram, Ripper decidiu que retornaria para a Unicamp, após muito assédio da USP por sua contratação.
          E assim fez-se a história que resultou numa Campinas voltada para tecnologia da informação e comunicações. Certamente Ripper teve um papel determinante na vinda de Projetos da Telebrás para cá, incluindo a vinda do CPqD, que originalmente iria para a Ilha do Fundão no Rio de Janeiro. Foi determinante, também, no estabelecimento do CTI Renato Archer em Campinas, na consolidação do Instituto de Física da UNICAMP, na vinda da Elebra Microeletrônica e no estabelecimento da ABC Xtal. Ripper foi responsável pelo estabelecimento de um dos primeiros spin-offs bem sucedidos da Unicamp: a Asga Microeletrônica.
          Estavam lançadas as sementes deste pólo de tecnologia da informação de grande relevância nacional e internacional.
          Curioso como alguns eventos tão prosaicos e às vezes tão trágicos, como a invasão da UNB, poderiam ter resultados tão impactantes para a história de uma região como Campinas.
          O retorno dos expatriados produziu um arejamento no meio acadêmico brasileiro, contribuindo para a abertura política uma década depois.
          Esta história mostra que a vinda do pólo tecnológico de TI para Campinas se deve, também, aos profissionais egressos do ITA, escola que formou muitos dos professores da Faculdade de Engenharia e do Instituto de Física da Unicamp. Isto ocorreu porque o início da ditadura, em 1964, resultou numa série de perseguições a estudantes e professores do ITA, provocando um êxodo. Estes cérebros foram buscar guarida fora do Brasil e em outras instituições, sendo que a UNICAMP foi uma das que muito se beneficiaram desta diáspora, também pela forma plural como foi conduzida por Zeferino Vaz. Dizem que o próprio Zeferino Vaz decidiu sair da UNB porque sabia que ali os militares não o deixariam implantar o projeto da universidade.
          Não se deve desconsiderar a capacidade e competência dos militares da época de identificar a vocação da região, tanto que apoiaram todas as iniciativas que a transformaram. Também souberam respeitar a liderança de Zeferino Vaz, agora em Campinas, coisa que não ocorrera em outros lugares (vide o caso da UNB). Nos anos que se seguiram, já bem perto da redemocratização, ocorreu nesta cidade uma inusitada cooperação entre forças nacionalistas e progressistas, inclusive com o enfrentamento à intervenção na Unicamp, ocorrida em 1981.
          A Campinas de hoje é, em boa medida, resultado daquele momento. Mas a cidade poderia ter sido muito mais em termos industriais. Infelizmente, muito do que se construiu naquele momento vibrante acabou se perdendo depois, como decorrência da abertura de mercado realizada de forma improvisada e messiânica durante toda a década de 90. Pretendo tratar desta história numa próxima coluna.

 

FONTE: Publicado no  Correio Poupular (04/07/2018 - 10h04)